Ensino Híbrido e a pandemia

Publicado em: 14/04/2020
Publicado em: 14/04/2020

Se inscreva na nossa newsletter e receba conteúdos exclusivos antes de todo mundo!

Educação e aulas on-line

Ensino híbrido e a pandemia do coronavírus (Covid-19): história, tempo e necessidade.

A quarentena imposta pela pandemia do novo coronavírus (COVID-19) e os mais de 290 milhões de alunos impossibilitados de frequentar a escola têm convidado educadores em todo o mundo a refletir sobre suas próprias crenças, dificuldades e resistências frente ao uso das tecnologias aplicadas à educação, e, principalmente, sobre a presente necessidade do ensino híbrido. Metodologias de ensino e aprendizagem existem na gênese de todos os processos de educação formal, mas se transformam com o tempo, à medida que enfrentamos os problemas não só da vida pessoal, como também da experiência coletiva.

Desde o início do período de quarentena, muitas ações têm sido conduzidas para que alunos não se prejudiquem academicamente pelo distanciamento social. As escolas têm usado aulas on-line, envio de conteúdos por aplicativo, videoconferências, e até mesmo o uso de mídias sociais, para ajudá-los durante esse período.

Como a educação chegou ao ensino híbrido?

 

Houve quem protestasse, na antiguidade remota, em favor da manutenção do ensino difuso e pautado exclusivamente na oralidade, sem que ninguém estivesse especialmente destinado à tarefa de ensinar.

Contudo, a escrita surge como uma necessidade diante das transformações técnicas e do aparecimento das primeiras cidades em decorrência da produção excedente e do comércio. Através dela, captou-se o tempo no espaço da matéria, permitindo o surgimento das primeiras escolas “sob as figueiras”.

Houve quem desacreditasse da importância da filosofia nascente, alegando que o ensino deveria continuar voltado para a preservação das tradições e da cultura milenar.

Entretanto, o desenvolvimento das cidades-estados gregas e o nascimento da democracia provocaram mudanças significativas na vida social e nas relações humanas, levando Sócrates, Platão e Aristóteles a transformarem o curso do ensino, respectivamente, através da maiêutica, da defesa da educação científico-filosófica e do Organon.

Houve quem duvidasse dos estudos sobre o conhecimento trazidos à tona pelos pensadores da Renascença, insistindo na manutenção de um ensino centrado na figura do mestre, na memorização e na correção pelo castigo.

Todavia, as transformações sociais decorrentes do crescimento das manufaturas e do pensamento liberal criaram as condições para que Rousseau defendesse, em Emílio ou da educação, a centralidade do ensino na criança, a fim de que ela aprendesse a pensar, não como um processo imposto de fora para dentro, mas naturalmente, de dentro para fora, estabelecendo um marco na pedagogia contemporânea.

Houve quem desprezasse o espírito de independência e iniciativa da criança, argumentando em favor da disciplina e do domínio de conhecimentos teóricos.

Porém, com o crescimento da indústria e a explosão demográfica nas cidades impulsionadas por um novo ideal de democracia, o conhecimento científico começa a exercer influência na educação, fazendo com que Dewey e Montessori passassem a defender a necessidade de educar as crianças através de metodologias ativas, considerando a escola não como preparação para a vida, mas a própria vida.

“A necessidade de educar as crianças através de metodologias ativas passa a ser defendida, considerando a escola não como preparação para a vida, mas a própria vida”

Houve quem visse loucura na introdução de processos de aprendizagem mediados por máquinas, argumentando que o contato físico com o professor seria a única forma de levar o aluno ao conhecimento.

Não obstante, a globalização econômica acompanhada da revolução tecnológica e digital e da crescente automação das empresas produziu profundas mudanças também no campo da educação, ensejando o surgimento da Educação a Distância (EaD) através de experiências sucessivas, que fez romper os muros da escola e ampliou o acesso à educação, minimizando obstáculos antes intransponíveis pelas distâncias físicas.

E, ainda hoje, há quem lance sarcasmo sobre a utilização de abordagens e metodologias como o ensino híbrido, a aula invertida, a gamificação e outras formas de utilização das ferramentas digitais na educação sob pretextos diversos. 

Ainda assim, a pandemia do novo coronavírus (COVID-19) trouxe consigo, como outrora, a necessidade premente de professores, escolas e gestores educacionais reavaliarem as suas próprias concepções de ensino, diante da necessidade de se colocar o aluno, mais do que nunca, de forma ativa, na centralidade do processo educativo, realizando uma verdadeira corrida para compreender como utilizar as diversas ferramentas tecnológicas existentes em favor da continuidade desse processo.

Como é fácil observar, o ano de 2020 será marcado em educação como sendo o ano do ensino híbrido, ou seja, de um ensino que começou de modo presencial (da forma como cada qual se acostumou a fazer), mas que, por força da pandemia que nos impõe o trabalho remoto, tem sido levado para o ambiente on-line, com a esperança de retorno ao modo presencial em tempo mais ou menos breve, suscitando discussões importantes sobre democratização e acesso à tecnologia e antecipando transformações educacionais que talvez levassem décadas para ocorrer.

Aproveitemos, assim, o tempo presente para educarmos a nós mesmos. A situação atual requer uma nova reflexão sobre o nosso papel como educadores das futuras gerações, o que inclui necessariamente uma reflexão sobre os métodos, os pressupostos e as ferramentas que utilizamos no dia-a-dia. A despeito de nossas resistências individuais, a necessidade de letramento digital nunca esteve tão urgente. E muitos de nós somos, neste momento, tão aprendizes quanto nossos próprios alunos.

Que lições podemos tirar de tudo isso?

Referências

ARANHA, M. L. de A. História da Educação e da Pedagogia. 3a. ed. São Paulo: Moderna, 2006.

SAVIANI, D. História do tempo e o tempo da história: estudos de historiografia e história da educação. Campinas: Autores Associados, 2015.

Sobre o autor

Marcelo de Cristo é Especialista Educacional da International School, professor, escritor e tutor de cursos de certificação de professores (CELTA) pela Universidade de Cambridge, tendo atuado na formação e desenvolvimento de professores no Brasil, América Latina e Reino Unido. É membro fundador e ex-presidente do Chapter RN do BRAZ-TESOL (2016-2018). Atualmente trabalha na formação e desenvolvimento de consultores pedagógicos bilíngues na International School. Desenvolveu programas de formação inicial e continuada de professores das redes pública e privada, tendo também colaborado junto ao Conselho Britânico no Brasil na realização de programas e criação de materiais de formação e desenvolvimento para docentes das redes pública e privada.

E ai, Gostou?
Se inscreva na nossa newsletter e receba conteúdos exclusivos antes de todo mundo!

1COMENTÁRIO
  • Mariá de Nazaré Conceição Sena
    14 de maio de 2020

    Olá
    Quero dizer que para mim está sendo um desafio ser professora neste momento. Haja vista que sou imigrante digital. Porém, sempre tive vontade de inovar em minhas aulas e busquei com muitas dificuldades fazer a diferença.
    Hoje o desafio é ainda maior devido ao difícil acesso da maioria de nossos alunos daqui do município de Presidente Figueiredo/Amazonas.
    Mas acredito que essa dificuldade tanto de professores quanto de alunos servirá para o crescimento de ambos, pois, é no campo de batalha que se conhece o verdadeiro soldado. Aquele que criar as melhores estratégias poderá vencer uma guerra.

DEIXE UM COMENTÁRIO